🌾 Gestão da fazenda

Mosca-branca no feijão: como proteger sua lavoura

Entenda por que a mosca branca pode acabar com a cultura do feijão

Por Sylvio Liquez Schirmer10 min de leitura
Mosca-branca no feijão: como proteger sua lavoura

Entenda por que a mosca branca pode acabar com a cultura do feijão

O feijão é uma cultura fundamental para o abastecimento alimentar do Brasil, destacando-se como uma excelente fonte de proteínas cujo consumo diário é uma tradição no país. Segundo os dados mais recentes da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em 2023 o consumo médio de feijão-comum foi de 12,8 quilos anuais por habitante, ou seja, pouco mais de um quilo por mês para cada brasileiro.

Com uma considerável adaptabilidade ao solo e às condições climáticas, o feijoeiro integra a maioria dos sistemas produtivos de sequeiro, principalmente de pequenos e médios produtores rurais. Nesse sentido, inclusive, estatísticas apontam que 70% da produção da leguminosa advém da agricultura familiar.

Entretanto, a produção de feijão encontra na mosca-branca (Bemisia tabaci) um inimigo mortal. A praga pode devastar plantações inteiras e destruir os lucros do agricultor caso medidas de prevenção e combate não sejam adotadas. Saiba quais são essas medidas e como o seu funcionamento pode salvar a sua lavoura.

Bemisia tabaci – A mosca-branca

Ao contrário do que muitos imaginam, a Bemisia tabaci, ou mosca-branca, não é uma mosca, mas um inseto da ordem Hemiptera que se alimenta de seiva. Ela apresenta uma coloração amarelo-pálida e possui cerca de 1 a 2 milímetros de comprimento. A praga tem uma dieta muito variada, afetando lavouras de feijão, de soja, de tomate, de batata-doce, e mais uma série de outras cultivares, chegando a se alimentar de cerca de 750 espécies diferentes.

Detalhe da mosca-branca adulto sobre folhas de feijoeiro
Detalhe da mosca-branca adulto sobre folhas de feijoeiro

Figura 1. Mosca-branca.

Ademais, essa praga apresenta um altíssimo índice de proliferação: A fêmea pode colocar de 100 a 300 ovos na face inferior das folhas, que eclodem no período de 5 a 7 dias. A Bemisia tabaci leva cerca de 32 dias para atingir a fase adulta, podendo ter de 10 a 11 gerações por ano na cultura do feijoeiro. Entretanto, a velocidade da sua reprodução aumenta em climas quentes e secos, diminuindo a quantidade de dias necessários para a maturação.

Seu ciclo de vida compreende é composto por quatro fases: a dos ovos, a das ninfas, a da pupa e a fase adulta. A imagem abaixo detalha esse ciclo com os períodos de cada um:

Ciclo de vida completo da mosca-branca destacado sobre gráfico
Ciclo de vida completo da mosca-branca destacado sobre gráfico

Figura 2. Ciclo de vida da mosca-branca. Fonte: IRAC – BR (2025). Edição dos autores sobre a imagem.

Para o feijoeiro, o grande problema dessa praga é sua ação toxicogênica: O inseto (principalmente a fêmea) é o vetor de um vírus extremamente perigoso para a cultivar, o Vírus do Mosaico Dourado.

A contaminação ocorre quando a mosca-branca suga a seiva da planta, infectando-a. Assim, o vírus pode ser transmitido antes mesmo da fase adulta do inseto, iniciando logo após a eclosão dos ovos, em aproximadamente uma semana após sua postura. A alimentação do inseto também produz outro problema para o agricultor: Ela libera uma solução açucarada, a honeydew, que é altamente favorável para o crescimento de fungos do gênero Capnodium sp.

Além do feijoeiro, a infestação de fungos que se origina do honeydew também pode afetar a soja. A fumagina – camada escura de fungos que se assemelha com fuligem, geralmente depositada nas folhas – pode necrosar a haste da soja, principalmente nas variáveis de ciclo mais longo (como a neo 580 e a neo 581, por exemplo), que são muito mais suscetíveis à doença, havendo casos em que mais de 80% da plantação foi devastada.

Essa enorme devastação causada na soja pode ser replicada no feijoeiro pela virose do Mosaico Dourado, também havendo casos em que as perdas excederam a casa dos 80% da lavoura. Para evitar esses desastres e controlar a mosca-branca, é fundamental conhecer o ciclo de vida do feijoeiro, de sorte a possibilitar o controle da Bemisia tabaci em cada uma de suas fases.

Confira, abaixo, as etapas de desenvolvimento do feijoeiro.

Fenologia do feijoeiro: O Ciclo de vida da planta

O ciclo de cultura do feijão dura de 70 a 90 dias, dependendo da cultivar escolhida e das condições climáticas na lavoura. Esse ciclo pode ser fragmentado em 10 fases que vão da germinação até a maturação. Cada uma dessas fases é marcada por características específicas, demonstradas na imagem abaixo:

Fenologia do feijoeiro
Fenologia do feijoeiro

Figura 3. Fenologia do feijoeiro.

Cada uma das fases é caracterizada por um evento, sendo identificadas da seguinte forma:

V0 – Germinação: inicia-se assim que são fornecidas as condições ideais de umidade e temperatura do solo.

V1 – Emergência: ocorre quando as plantas apresentam cotilédones acima da superfície.

V2 – Folhas primárias: marcada pelo aparecimento de folhas unifolioladas opostas e totalmente expandidas.

V3 – Primeira folha composta aberta: inicia-se com a presença da primeira folha trifoliolada aberta na planta.

V4 – Terceira folha trifoliolada aberta: começa com o surgimento da terceira folha composta aberta.

R5 – Pré-floração: ocorre com o surgimento dos primeiros botões florais, iniciando a fase reprodutiva.

R6 – Floração: nesta fase é possível visualizar a primeira flor aberta, marcando o início do período reprodutivo.

R7 – Formação das vagens: nesta fase inicia-se a formação dos frutos da planta, marcando também o início do enchimento dos grãos.

R8 – Enchimento dos grãos: fase caracterizada pelo crescimento dos grãos e pela maturação fisiológica dos mesmos.

R9 – Maturação fisiológica: é caracterizada pelo fim do enchimento dos grãos e pela perda das folhas.

Caso a contaminação ocorra até o estágio V2, a planta pode sofrer uma grande redução no seu porte.

Feijoeiro com sintomas de mosaico dourado ainda no estágio vegetativo
Feijoeiro com sintomas de mosaico dourado ainda no estágio vegetativo

Figura 4. Feijoeiro sujeito ao Vírus do Mosaico Dourado. Fonte: Os autores.

Monitoramento da mosca-branca na cultura do feijoeiro

O combate à Bemisia tabaci pode ser feito utilizando-se de várias técnicas: culturais, químicas, mecânicas e biológicas. Entretanto, antes da aplicação de todas essas técnicas é fundamental que o agricultor realize o monitoramento da praga, principalmente no início da lavoura. Para tanto, a inspeção da plantação e a colocação de armadilhas - com o objetivo de coletar amostras - são ferramentas fundamentais para seu posterior controle.

A lista a seguir apresenta quais são as formas de realizar esse controle:

1. Controle Cultural

Essa forma de controle busca tornar o ambiente menos favorável à sobrevivência e proliferação da praga. Não se limita à apenas uma técnica, mas à todas aquelas que cumpram o objetivo presente em seu conceito. Algumas delas são:

Eliminação de fontes alternativas do mosaico dourado O mosaico dourado pode ocorrer nas culturas de feijão e de soja. Com isso em mente, realizar a eliminação dos restos culturais de um plantio anterior que contenha alguma dessas plantas aumenta a prevenção ao contágio do vírus. A eliminação de ervas daninhas também é importante porque apesar de não abrigarem diretamente o vírus, podem ser reservatórios de Bemisia tabaci.

Local do plantio Culturas hospedeiras da mosca-branca, como soja, tomate, algodão e fumo devem ser evitadas nas proximidades da lavoura de feijão. Isso ajuda a evitar a ocorrência da praga no feijoeiro.

Barreiras vivas A utilização e barreiras vivas como o plantio de espécies de milho pode ajudar no controle da mosca-branca. A plantação-barreira atua como um muro contra insetos infectados que são carregados com o vento.

2. Controle Biológico

Algumas espécies de predadores podem ser grandes aliados do agricultor no combate à mosca-branca. Entre eles estão as espécies pertencentes às ordens Hemiptera (percevejos, cigarras), Neuroptera (como a formiga leão) e Coleoptera (besouros).

Também existem organismos parasitas que ajudam no controle da mosca-branca, como os pertencentes ao gênero Encarsia, Eretmocerus e Amitus.

3. Controle Mecânico

O controle mecânico consiste essencialmente na utilização de armadilhas para a diminuição da população do inseto. Aqui também entram as barreiras físicas artificiais, sendo seu melhor exemplo as telas de proteção.

4. Controle Químico

O uso de produtos químicos também integra as possibilidades de controle da Bemisia tabaci. A tabela a seguir reúne uma série de inseticidas que podem ser utilizados no manejo da mosca-branca, catalogados conforme seu ingrediente ativo, seu grupo químico – ou sítio de ação primário – e conforme a fase do inseto em que devem ser aplicados.

(imagem - colocar marcação de imagem)

É justamente no controle químico que se revela a importância de conhecer cada uma das fases de vida da mosca-branca. Nesse mesmo sentido, a observação do estágio em que se encontra a praga é essencial para que a aplicação dos métodos de controle escolhidos não se transforme em prejuízo para o agricultor.

Manejo Integrado de Pragas

O manejo da Bemisia tabaci pode ser feito por meio das várias técnicas de controle apresentadas. Entretanto,

O Manejo Integrado pode juntar técnicas culturais, biológicas, mecânicas e químicas, sempre pensadas conforme o custo/benefício das aplicações e conforme seus impactos no ambiente e na sociedade. Não se trata apenas da aglomeração de várias formas de controle, mas da sua distribuição eficiente.

Essa eficiência no manejo fica mais requisitada a cada dia e muito disso se deve às novas variedades da mosca-branca que são resistentes à inseticidas. Além disso, estudos recentes demonstraram a expansão da área de infestação da Bemisia tabaci para regiões cada vez mais ao sul do país, como mostrará o mapa na seção seguinte:

A rota de expansão da mosca-branca

A Bemisia tabaci, na verdade, representa um complexo de espécies que são morfologicamente indistinguíveis entre si. Assim, “mosca-branca” não compreende apenas uma espécie, mas o termo representa uma variedade de biótipos – que são grupos de indivíduos que compartilham os mesmos genes.

Dentre eles, destacam-se os biótipos B e Q, que são os mais preocupantes para o agricultor. O biótipo B, ou “Middle East Asia Minor” (MEAM1) é encontrado com mais frequência pelo Brasil, também sendo vetor do Vírus do Mosaico Dourado. A característica mais danosa dessa variedade de mosca-branca é sua resistência à inseticidas, como carbamatos, piretróides, organofosforados e neonicotinoides.

Já o biótipo Q, ou “Mediterranean” (MED), é encontrado com maior frequência nas regiões sul do Brasil (apesar de ter sido identificado também no norte do estado do Mato Grosso). Sua principal característica é sua resistência à inseticidas juvenóides.

O mapa abaixo, elaborado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista – UNESP, traz dados da distribuição dos biótipos B e Q pelo país. O biótipo B está representado em azul e o biótipo Q em vermelho.

(imagem - colocar marcação de imagem)

Como a mosca-branca é um inseto polífago – ou seja, alimenta-se de várias plantas - sua presença pode significar prejuízo para várias lavouras. A título de exemplo, o biótipo Q, encontrado no sul do Brasil, transmite o Tomato yellow leaf curl virus (TYLCV) e o Tomato torrado virus (ToTV).

Além disso, o honeydew secretado durante a alimentação do inseto é um criadouro de fungos que podem afetar tanto a fotossíntese do feijão quanto a da soja, representantes importantíssimos do agro brasileiro.

Com a descoberta de novos biótipos resistentes à tipos específicos de inseticidas, o conhecimento do princípio ativo que compõe o insumo é de fundamental importância para o agricultor, uma vez que a aplicação de um agente químico para o qual a praga desenvolveu resistência só pode se traduzir em prejuízo.

Em razão dessa necessidade, o aplicativo de gestão de fazendas da Brever desenvolveu um bulário de agrotóxicos integrado, com acesso offline. Com ele você não depende de sinal para consultar o que precisa na hora da aplicação.

Além disso, o aplicativo traz ferramentas que permitem o controle de estoque e de movimentação dos seus defensivos agrícolas, classificando-os conforme seu princípio ativo. Em tempos onde o controle de pragas requer o manejo integrado para tornar sua lavoura competitiva, a Brever traz mais do que facilidade para a gestão da sua fazenda: ela traz eficiência.

Compartilhar
SL
Sylvio Liquez Schirmer

Autor convidado

Registre o campo e veja o número no mesmo dia

Estoque, frota, manejos e custo por talhão numa plataforma só. Grátis para começar, sem cartão.

Começar grátis

Newsletter

Receba o melhor do blog, 1 e-mail por semana.

Gestão, estoque, frota e custo, do jeito que se resolve no campo. Sem propaganda toda hora.

Ao assinar, você aceita receber e-mails da Brever. Sai quando quiser, pelo link no rodapé de cada e-mail.

Leia também